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Djambê lança clipe de “Quanto Vale?”

Com pegada múltipla e de sonoridade bastante enérgica, a banda Djambê se propõe a fazer um som de rock que se mescle às influências musicais africanas e pulse com a energia do maracatu e do chamado rock-macumba, o autointitulado gênero da banda.

Conhecida pelas letras ácidas e bastante politizadas, a banda belo-horizontina lançou, 118 dias depois do maior crime ambiental da história brasileira, o clipe “Quanto Vale?”, que fala sobre a responsabilização das empresas mineradoras no rompimento da barragem germano, ocorrido na cidade de Mariana.

Como surgiu a ideia da canção?
Priscilla Glenda: Assim que soubemos da notícia do rompimento da barragem, começamos a acompanhar as notícias e a canção surgiu, naturalmente, para o Emílio.

Como vocês veem o impacto ambiental da ruptura da barragem de Mariana na vida das pessoas, principalmente das mulheres?
Priscilla Glenda: É uma situação de tristeza profunda. Algumas pessoas perderam tudo que construíram ao longo da vida, todas as suas lembranças. É de uma frieza tão grande por parte dos responsáveis não se sensibilizarem com isso. Não estou perto das mulheres que estão passando por esse momento tão difícil, só acompanho as notícias, mas imagino que elas sejam as mais atingidas. Pelo fato de ficarem mais em casa e gerir sua vida em torno dos afazeres domésticos e filhos, no interior essa cultura machista é muito mais forte.

Pessoalmente, como a história da barragem impactou vocês?
Priscilla Glenda: Eu estava abalada com as notícias que chegavam até mim, mas o me marcou demais foi a nossa ida à Regência (ES) para tocar. Fomos convidadxs, após o lançamento de “Quanto Vale?”, para nos apresentarmos em um evento beneficente e na estrada fomos margeando o Rio Doce, vendo como a lama tóxica estava se espalhando e levando com ela toda a vida ribeirinha. Também vimos pessoas em filas para receber comida e água, que estava sendo transportada com escolta policial, pois as pessoas estavam tentando saquear os caminhões.

Quando, finalmente, chegamos e vimos o mar, eu só conseguia chorar. Me senti num cenário de filme de ficção científica, o mar era de lama, ondas de lama, a areia suja e os pássaros voando de um lado para o outro sem comida. Um lugar que era um refúgio natural, point de surf, onde tartarugas desovavam, morto.

Qual a importância de se posicionar diante desse caso?
Priscilla Glenda: Nossas músicas, naturalmente, carregam nossas mensagens e questionamentos sobre o mundo em que vivemos. Quando ficamos sabendo sobre o rompimento da barragem, não demoramos muito para escrever a música. Foi um misto de dor e raiva. Para nós a arte tem a função de refletir os acontecimentos da época, só existe com esse propósito. Quando temos a chance de falar para um número maior de pessoas, acreditamos que uma mensagem importante deve ser passada, por causa da responsabilidade que isso traz.

Como foi o pensado o clipe e qual a intenção da montagem dele?

Priscilla Glenda: Assim que letra e melodia ficaram prontas, decidimos gravar um vídeo improvisado e soltar na internet como forma de contribuir com a denúncia. O vídeo acabou sendo compartilhado por uma página musical importante do Facebook e atingiu quase um milhão de visualizações. Através da viralização desse vídeo surgiram oportunidades para ampliarmos o alcance de denúncia. Na abertura do Festival de Arte Negra do ano passado, através de um convite do Grupo dos Dez de teatro, fizemos um protesto dentro do Memorial da Vale, cantando a música enquanto um dos atores fazia uma performance, nú, com argila simbolizando a lama enquanto os outros integrantes liam uma carta em repúdio aos responsáveis pelo acontecido e a ausência de providências.

A apresentação causou um desconforto enorme nos funcionários do local, principalmente, pelo fato de termos sujado o palco. Também recebemos um convite para tocar em Regência (ES). A Vila fica 120 km ao norte de Vitória. Um local, até então, preservado, com um povo simples, descendentes de índios, caboclos e pescadores. Onde a foz do Rio Doce levava vida e sustento para as famílias. Além de sua praia constar entre as melhores para a prática de surf no Brasil. No caminho para lá fomos margeando o rio e presenciamos a destruição e o desespero de algumas famílias ribeirinhas. Além de não ver nenhum vestígio de vida nas proximidades do rio, ficamos devastados com o cenário, que parecia de guerra, com comboios de caminhões de água mineral escoltados pela polícia e filas de moradores esperando para receber doações. E quando, finalmente, chegamos, não acreditamos no que estávamos vendo. A praia estava irreconhecível, mar de lama e areia suja.


Durante a nossa estadia conversamos muito com os moradores e nos sensibilizamos muito com a dor deles que estavam sem saber que rumo iriam tomar em suas vidas, ligadas diretamente ao Rio Doce e a Praia. Esses dois momentos nos marcaram muito e despertaram a vontade de construir uma mensagem mais impactante, que potencializasse a denúncia.

Assim surgiu a idéia de gravarmos o clipe de “Quanto Vale?” Convidamos amigos de diversas áreas para nos ajudar nessa tarefa, moradorxs da Casa Fora do Eixo Minas, integrantes do Grupo dos Dez de teatro, do Ballet Jovem e do Teatro do Palácio das Artes, militantes do Levante Popular da Juventude, fotógrafos, pais, mães, irmãos e irmãs.

O clipe traz a nossa visão diante do ocorrido, com alguns personagens principais como o fio condutor da história: o empresário, o político, a imprensa e as vítimas. A ênfase das imagens está nas pessoas, por isso utilizamos um fundo preto e o plano americano. A gravação de todas as cenas foi feita durante 24 horas de trabalho. Todas as pessoas que se dispuseram a ajudar de alguma forma foram fundamentais para a realização clipe.

No dia combinado, cerca de 50 pessoas apareceram para gravar, tirar fotos, fazer comida, preparar cenário, dentre várias outras demandas que um clipe precisa. A idéia básica do clipe já havia sido explicada, mas todos ficaram livres para sugerir cenas e trazer outros pontos de vista. O clipe traz uma crítica a ausência de resposta a população e a impunidade aos responsáveis pelo crime ambiental. Esperamos que ele possa nos ajudar a entender que todos somos vítimas. É o nosso jeito de reforçar a denúncia, de manifestar e colaborar para que o que houve não caia em esquecimento.

Confira o clipe: https://youtu.be/U2kwUnA7tpY


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