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ENTREVISTA BOOGARINS – VOANDO SEM ATERRIZAR

Hoje a gente aprendeu a voar sem sair do lugar. De passo a passo, pra ninguém derrubar, nós falamos com a revelação da música brasileira independente, os Boogarins. Falando de suas experiências e das suas impressões dentro do atual cenário para as bandas, produtores e público, Dinho Almeida, Benke Ferraz, Raphael Vaz e Ynaiã Benthroldo nos deram uma avalanche de percepções sobre a música independente.

“A gente tinha essa expectativa e conseguiu fazer isso. Mesmo fazendo o que a gente faz que é só tocar. A gente divide casa, carro, comida, racha o busão, tudo nós! Viaja de ônibus de carro, do jeito que dá.”

TNB: Quando o primeiro disco saiu, vocês eram uma revelação, agora o trabalho novo apresenta-se já com a banda consolidada, lotando platéias, tocando em várias cidades do país, parcerias com selos, vocês estão indo pra uma nova tour na gringa. Comentem um pouco isso e o novo disco, como que foi pensar esse processo vivendo essa evolução também da banda.

Benke: Este segundo disco aconteceu meio que pra gente como se fosse o primeiro disco da banda mesmo, entendeu? Aconteceu da gente pegar essas músicas que tínhamos gravado em casa, colocar na internet, de repente lançar no mundo inteiro e a gente conseguir fazer turnê, então meio que teve essa coisa toda da gente ser a revelação, mas pra mim ainda não tinha um disco de verdade da banda.

Dinho: A gente nem viu acontecer.

Benke: É, a gente não viu acontecer, então em algum momento eu penso assim “Ah! O que que o pessoal vai pensar desse segundo disco, porque rolou o primeiro, o pessoal falou bem mas é a primeira vez que a gente tá fazendo um disco como Boogarins mesmo, depois da banda existir né? Antes, era só um monte de retalhos de música que eu o Dinho tínhamos feito, gravando sozinho em casa, que virou o Boogarins. Eu tô muito feliz, principalmente agora que saiu o primeiro single (“Avalanche”), e o disco sai agora em outubro, fazer esse show aqui (no Centro Cultural São Paulo) logo depois de ter lançado o single foi muito bacana, de poder tocar uma música nova e o pessoal cantar a letra, isso foi muito legal pra gente.

TNB: Pensando que vocês tem uma vivência no Brasil e uma vivência fora também, com agentes que trabalham aqui e também em outros países, queria que vocês falassem quais as diferenças na forma de trabalhar aqui e lá fora que vocês já identificaram.

Ynaiã: Cara, eu acho que lá fora isso que a gente começou a fazer há pouco tempo atrás no país, de reconhecer uma cena independente, uma galera que tá fazendo música independente, acho que lá fora essa estrutura que faz com que esse mercado independente, tanto médio quanto grande, já rola. Lá tem muito isso, uma gravadora que trabalha… sei lá com uma banda como Boogarins, ao mesmo tempo ela tem um casting com uma banda que tá no mainstream saca.

Então quando aqui no Brasil essa coisa das grandes gravadoras e o mercado fonográfico viveram uma queda e não sobrou nenhuma estrutura mínima, enquanto lá fora esta estrutura mínima já existia né. A lógica de turnê nos Estados Unidos é uma lógica que nego fazia isso tipo em 1940, os cara do Jazz saiam tocando, vendendo os vinis em todo lugar sacou?

Benke: Tocando todo dia.

Ynaiã: Tocando todo dia. Tinha alguém que gravava esse disco e depois prensava os vinis ali, então é uma lógica de mercado antiga e que eles conseguiram atravessar, por ter esta estrutura tão antiga, eles conseguiram atravessar as crises do mercado fonográfico.

Benke: Isso, ainda lá fora é legal você estar num casting de uma gravadora e isso vai te dar suporte.

Dinho: O bagulho acontece em todos os níveis profissionais.

Benke: Você pode ser uma banda pequena lá, mas você vai ter lugar pra você fazer 100 shows, 150 shows em um ano.

Ynaiã: Tendo uma gravadora por trás ou não saca? É isso que é a parada. Porque como é uma estrutura que já existe, o Pub vai tá lá esperando a banda chegar e o publico dela, pra tocar saca?

Benke: Mas é uma coisa que eu vejo assim muito pelo fato de que a gente vê muito como pop, a música pop pra eles lá é o que a gente vê aqui como o alternativo, entende?

Dinho: Lá os cara ganha dinheiro com tudo! Assim, na real vendo com outros olhos, é meio páia, mas na verdade é isso, aqui a gente ainda tem muita beleza, muito pudor dentro do independente, tipo meter as caras e fazer, isso ai tem uns 4 anos que tem banda enfiando a cara, e ai você escuta as pessoas falarem, – você vai tocar ai? Ai você diz que vai tocar sim e em outros lugares semelhantes e ali de novo, se não for ser assim… não tem como ficar esperando pra fazer show em estádio de futebol!

Benke: Uma sementinha que a gente planta em cada lugar.

TNB: E no Brasil essa cena? Tá melhorando?

Benke, Ynaiã e Dinho: Pô cara. Pra gente tá melhorando! Não sei se é pra todo mundo. Eu acho que essa coisa, se você for falar de politicas públicas tem muito espaço a ser conquistado, editais, hoje em dia são inúmeros, tem aqui mas é uma coisa muito restrita. Não é todo mundo que consegue, você tem que ter alguém que sabe escrever projeto, se você tem uma banda que faz 100 shows por ano no Brasil, você ta fazendo, mostrando serviço, tocando pra umas 50 pessoas umas 100 vezes, num ano, você deveria conseguir, mas hoje ainda existe essa burocracia toda né, você precisa de gente que traga essa realidade pra mais próximo do artista. Se você for na Suécia, se você for na França tem “ Bolsa Artista “ né? Você consegue colocar que tá vindo tocar aqui na porra do Brasil né, não tem como você vim fazer um show duma banda aqui que ninguém conhece por 150 reais o ingresso, então o governo vai lá e te ajuda, custeia as passagens pra você chegar lá, custeia hotel. Você consegue fazer um show acessível, então eu acho que falta isso, lógico que tem gente que consegue fazer isso aqui no Brasil né, que sabem usar da tecnologia dos editais, as leis de incentivo, mas eu, com a idade que tenho, com a experiência que eu tenho com banda eu só queria saber de tocar, pelo menos a gente conseguiu fazer isso de outro jeito, conseguiu ter gente lançando disco fora, levantar uma grana aqui e ir pra fora, mas aqui no Brasil você não vai ganhar dinheiro se resolver hoje ser artista entendeu, você não consegue fazer isso, então é um problema, você não pode largar tudo para viver de musica, a não ser que você tenha expectativa de como fazer aquilo e trabalhe pra um retorno de médio a longo prazo, a gente tinha essa expectativa e conseguiu fazer isso. Mesmo fazendo o que a gente faz que é só tocar.

A gente divide casa, carro, comida, racha o busão, tudo nós! Viaja de ônibus de carro, do jeito que dá.

TNB: Sobre Festivais, hoje talvez se a gente fizesse uma enquete, acho que seria alto o número de pessoas que iriam falar que viram o Boogarins pela primeira vez em um festival. Queria que vocês comentassem um pouco desse cenário também, até pela banda ter surgido em Goiânia que é uma cidade que tem tradição em Festivais independentes.

Benke: Eu acho que isso ai é tipo, gente que tem a sagacidade de usar as politicas publicas, a iniciativa pública que o governo te dá, gente que fazia isso que a gente tá fazendo, tinha banda há 15 a 20 anos atrás. Então, todo estado que você for vai ter um nego que fazia som há 15, 20 anos atrás.

Ynaiã: Tipo, ter todo ano ali uma Lei de Incentivo que dá suporte pra os Festivais, uma galera que antes dizia “Nunca vou tocar naquela cidade‘’ foi tocar no Macapá no Quebramar, Patos de Minas, lugares que você nunca chegaria pela lógica do mercado. A maior diferença daqui pros outros lugares do mundo onde essa lógica de mercado já é consolidada, é que mesmo antes de haver a quebra (da indústria fonográfica), já era uma lógica que funcionava. Lógica restrita.

Benke: Já são seis anos consecutivos tocando em Festival de Goiânia, ao mesmo tempo você vê um monte de banda nova, como Ultravespa do Dinho (do Boogarins) que já tocava em festivais há muitos anos, nos Gritos Rock, no Vaca Amarela, Bananada, abrir um festival e no final da noite você vê aquela banda Gringa que você nunca pensou que iria tocar no mesmo lugar, isso aconteceu com várias bandas, não só com a gente. O Ynaiã com o Macaco Bong passou por muita história de ter circulado nos lugares mais remotos do Brasil. Brasil profundo…

Benke: Eu até mesmo como público vi muito festival crescendo, que há 10 anos era tosco e depois virou festival foda em Goiânia. É muito legal ver que a galera conseguiu crescer. A galera infelizmente para poder se especializar em conseguir recurso público pra fazer os festivais, tentando criar uma consciência, uma cena, teve que deixar de fazer a arte, parar de ser musico e focar em produção.

Ynaiã: Isso é legal porque vai colocando cada um no seu lugar também. Por exemplo, o cara que quer ser só artista de uma certa forma, tá fudido, mas já encontra caminhos pra se fuder menos. Porque se não for nessa lógica de fazer os festivais, você faz uma volta ali naquela cidade, toca de novo em um outro evento lá e, depois de 2 anos volta lá, porque você lançou um disco, se a banda não fizer esse processo, passo a passo e estar conectado com o que acontece no Brasil musicalmente, não adianta você achar que vai fazer igual aos guris aqui (Benke e Dinho), gravar uma musica em casa, vai lançar e alguém vai chegar e falar – Caralho! Eu vou lançar esse disco seu, mesmo ele estando mal gravado desse jeito.

Dinho: É verdade. Se agente tivesse ficado só no sonho a gente não tinha feito nada.

Benke: Se a gente pensasse assim… ah, o disco saiu lá fora, a gente não precisava fazer uma turnê longa pra tocar algumas noites pra 10 pessoas, outros dias pra 200 pessoas, outro pra 50, você vai fazer show todo dia, é isso que você vai estar disposto, tocar numa segunda, terça. É isso que você precisa fazer pro seu rolê valer, pra se alimentar, fazer girar. Isso dá pra você fazer aqui também, isso em qualquer interior que você for, Goias, Minas, Mato Grosso, você vai pra qualquer cidade pequena. Se tiver pensando em um roteiro, tem um show que vai te dar uma grana aqui na capital, ai se quiser realmente fazer, tocar em outras cidades pro pessoal te ouvir, conhecer, você vai conseguir. Falta só a iniciativa.

Ynaiã: O Brasil tem que saber jogar com as peças que tem. Repara, já tem umas rotas ali que alguem já abriu. Não adianta querer inventar uma roda aqui, eu acho. As vezes eu vejo muito isso, uma banda que quer inventar umas rodas, que cara dificil,  pode dar certo isso ai, mas se for por esse caminho aqui que esta mais abertinho, voê não acha que pode começar por aqui pra depois ir. Todo mundo aqui começou em Festival, vendo os outros tocarem, enquanto a gente tocava cedo.

Benke: Hoje é diferente a necessidade de mostrar uma banda de verdade, não é você ter um clipe tão… Um disco super bem gravado, porque isso tudo já está rolando. Se você tem mil reais, vai comprar uma câmera foda, gastar um tempo em frente ao computador, você vai conseguir montar um video, coisa que anos atrás não poderia ser feito por menos de cinco, dez mil reias; então não é mais só chegar com um clipe bonito, um disco bem gravado e achar que todo mundo vai chamar você pra fazer tudo. Também tem que ser feito o dificil. O que é fazer o dificil? É fazer musica boa (risos)

Ynaiã: Acho que musica boa é o diferencial de tudo, você pode ser o Fodão, ter a melhor estratégia, mas  se a  sua musica não for boa, irmão … vai ficar 10 anos fazendo a parada, e nada.

Benke: Você ta falando o que Ynaiã? Que sua musica é boa? Hahaha

Ynaiã: vamo contar ae então, quantos anos que eu estou brincando?!…. Hahahaha

TNB: O TNB hoje é uma plataforma que tem mais de 32 mil bandas cadastradas. E tem muita banda começando, muita banda que já conseguiu um reconhecimento na cena local e almeja crescer, conquistar várias coisas que os Boogarins já conquistaram. O que vcs poderiam, por exemplo, compartilhar com esses grupos?

Rafael: O Boogarins aprendeu que tem que trabalhar muito pra ser vagabundo!… (Risos de todos nós rs)

A vida do bom vivã goianience, tá dificil..rsrs. Mas é diversão todos os dias, ali com seu amigo fazendo som.

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