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Como embarcar em turnês internacionais?

Por Ponte Plural / Publicado originalmente aqui.

Nos últimos anos houve uma crescente articulação de artistas brasileiros para a realização de shows no exterior com rotas que passam principalmente pela América Latina e Europa. Conversamos com dois dos músicos independentes que mais circulam internacionalmente –  Gabriel Thomaz do Autoramas eAnderson Foca da Camarones Orquestra Guitarrística – e  separamos algumas dicas para os artistas que querem embarcar em turnês e invadir as cenas musicais de outros países!

1. Faça um planejamento detalhado e com antecedência.

É preciso estar bem atento: cada país possui suas particularidades para entrada de estrangeiros em seu território que podem envolver desde o tipo de visto necessário para realizar shows, vacinas obrigatórias, condições exigidas pelo plano de saúde que deve ser contratado, documentos necessários para alugar um carro para circulação, comprovação de uma quantia de dinheiro para se manter na viagem, entre outros pontos que precisam ser levados em consideração na hora de organizar sua turnê. Pesquise bem antes de embarcar numa roubada e ser enviado de volta sem conseguir fazer seu show!

E como bem aponta Gabriel Thomaz, há um senso comum a ser quebrado nas viagens: “a gente foi fazer a primeira turnê nossa fora do Brasil no Japão. A galera do Guitar Wolf que nos chamou. Eles nos levaram, pagaram os custos todos, as passagens e coisa e tal. Eu acreditava que fazer show fora do Brasil era pra banda que tinha um som folclórico, com batucada, para quem tem um gosto exótico e a primeira coisa que eu descobri quando a gente foi pra lá é que isso é a maior mentira! Se você faz um som legal você tem espaço. Cantando em português, em russo, em economês, o que você quiser, não tem dessa!”.

Além disso, tenha em mente que o valor envolvido nesse tipo de circulação é alto, como ressalta o vocalista do Autoramas: “os custos lá foram são caros, o Real está muito desvalorizado. Tem que fazer muita conta e contar com a sorte. Marcar uma turnê é muito complicado. Hoje em dia temos muitos amigos que viajam – oCamarones Orquestra Guitarrística, inclusive, tem um circuito parecido com o nosso -, mas por muito tempo eu perguntava para as pessoas e ninguém sabia me dizer nada, absolutamente nada, é um desbravamento mesmo”.

Ou seja: pense bem por onde você quer circular e a melhor estratégia para desenvolver sua tour com um custo que caiba no seu bolso. Quando participamos da Womex (o mais importante evento internacional do mercado de shows e festivais da indústria musical) era praticamente unânime entre os artistas que a Europa era um território muito melhor para viajar (financeiramente falando) do que os Estados Unidos. Além disso, é bom checar com antecedência os equipamentos disponíveis nas casas de shows agendadas para não ter surpresas. O Camarones, por exemplo, alugou o backline  e percorreu as cidades com ele no carro. No caso de um artista solo, pode ser melhor contratar músicos locais para o acompanharem, ao invés de levar toda equipe daqui. Essa estratégia é muito utilizada por artistas gringos que fazem shows no Brasil, como por exemplo o Paul Di`Anno.

Fique de olho em editais de circulação para conseguir um apoio financeiro. O Ministério da Cultura e algumas Secretarias Estaduais e Municipais abrem oportunidades para custear viagens de artistas para o exterior que incluem as passagens aéreas e em alguns casos até hospedagem. Para isso, além de indicar a rota, apresentar documentos dos músicos (todos já possuem passaporte?) e um bom material da banda, é preciso incluir uma carta convite do festival, da casa de show, ou do produtor estrangeiro. Como esses editais não possuem um período certo para lançamento, é bom garantir todos esses dados com antecedência para não perder a chance.

Se a grana estiver apertada e a sua banda já possuir uma base de fãs no Brasil, uma alternativa para conseguir uma verba para circular é fazer uma campanha de crowdfunding. O financiamento coletivo já foi utilizado pela banda brasiliense Móveis Coloniais de Acaju para arcar com parte das despesas de hospedagem, diárias de alimentação da equipe e da banda e transporte interno para uma turnê que envolvia a participação no Festival Primavera Sound em Barcelona. Outra possibilidade é seguir os passos da banda carioca Canto Cego que, além de uma vaquinha online, realizou um evento com artistas parceiros que teve toda sua bilheteria revertida para custear a ida do quarteto da Maré para participar do Montreux Jazz Festival, na Suíça.

2. Trabalhe bem o networking.

Uma boa rede de contatos é um ponto fundamental para começar a organizar uma turnê pelo exterior. Procure conhecer produtores e artistas das cidades por onde tem interesse em passar durante a circulação, pois além de serem capazes de ajudar a agendar shows, eles podem dar outras informações importantes sobre o local, principalmente a respeito dos hábitos do público e da mídia.

Para isso, comece utilizando a teoria dos seis graus de separação (Six Degrees of Separation), ou seja procure na sua rede de amigos algum contato em comum para intermediar uma apresentação. Essa busca foi muito facilitada pelas redes sociais: basta entrar no perfil da pessoa com quem você quer dialogar que você já identifica os amigos em comum.

Com o contato feito, leve em consideração que provavelmente esse produtor não conhece a banda.  Como oGabriel Thomaz bem destacou: “é um recomeço. Precisa ter paciência e contatos. A gente batalhou muito para conseguir os espaços e adquirir a confiança dos produtores e dos contratantes”. Para equilibrar a relação, é interessante que você também estimule o intercâmbio convidando bandas locais para participar da sua turnê, produzindo eventos em que esses artistas estrangeiros possam circular, ou dando algum tipo de apoio durante uma passagem deles no nosso país. Seja com hospedagem, divulgação, suporte de equipamentos, ou compartilhando contatos, afinal, retribuir quem lhe ajudou antes é um passo importante para fortalecer laços.

E manter o relacionamento no seu cotidiano é fundamental para deixar a porta aberta para outras possibilidades, como aponta Anderson Foca: “o networking é uma das coisas principais que a gente deve alimentar no nosso dia-a-dia. Também alimentar contatos antigos e ao mesmo tempo procurar novas oportunidades. Parece óbvio mas a gente esquece de mandar uma mensagem, continuar batendo um papo musical depois que a  tour acaba com os brodagens de outros países e afins. Isso é o que fazemos”.

3. Divulgação por todos os lados.

Uma turnê no exterior é um marco importante e demonstra o amadurecimento da carreira de uma banda. Por isso, necessita de uma boa estratégia de divulgação para a viagem repercutir tanto nas cidades por onde vai passar – de modo a atingir o público interessado -, como também na mídia brasileira, que costuma dar destaque a esses processos de internacionalização musical.

Dessa forma, vale buscar através do networking internacional contatos com a imprensa das cidades na rota de circulação. Para isso é preciso ter boas fotos de divulgação e um release caprichado, no idioma local, ou em inglês, que facilite a compreensão do jornalista. Lembre-se que release de banda não é depoimento do ~ finado ~ Orkut. Você precisa gerar interesse na sua pauta e mostrar que é uma oportunidade única assistir ao seu show, afinal você cruzou o oceano para chegar ali.

Por isso, é bom aproveitar também esse momento para preparar uma boa cobertura sobre a turnê. A bandaAutoramas, por exemplo, costuma publicar imagens de sua circulação no grupo de facebook onde reúne mais de 10.000 fãs e também coleta variadas imagens, que já deram até origem a um DVD intitulado “Autoramas Internacional”, que foi financiado através de campanha de financiamento coletivo.

Da mesma forma, a Camarones Orquestra Guitarrística também tem um cuidado em realizar essa cobertura, como explica Anderson Foca: “temos uma didática para cumprir esses deveres. Cada um faz um pouquinho, todo mundo ganha. Na parte da comunicação todo mundo registra e eu e Ana <baixista da banda> finalizamos o conteúdo e colocamos no ar. Não pagamos ninguém para fazer e nem acho legal outra pessoa fazer. Quanto mais real for seu contato direto com os fãs de música, mais legal é o impacto causado pelas ações de comunicação“. É possível conferir no site da banda um vídeo com um resumo da viagem e oDiário de Bordo completo da última tour pela Europa com o contato de todos os lugares por onde passaram (imperdível!).

A relação com o produtor do evento também precisa estar bem sintonizada para que a divulgação ocorra da melhor forma e todos saiam ganhando, conforme explica Gabriel Thomaz: “você tem que confiar no contratante, no produtor que está fazendo o show. Às vezes o cara é muito bom e às vezes não é. E é uma doidera. É até engraçado. você fecha um show com cachê fixo, aí chega lá e você vê que o produtor ganhou muita grana em cima da banda, porque foi muita gente. E você pensa que deveria ter feito bilheteria. Aí faz a bilheteria e não vai ninguém. Isso acontece no Brasil também. São coisas assim que você precisa afinar com a galera“.

4. Pense estratégias para formar plateias no exterior.

O movimento de internacionalização musical de artistas brasileiros encontra-se em crescimento nos últimos anos, buscando uma formação de plateias em outros países, estimulados principalmente pela divulgação e distribuição de músicas por meio de ferramentas digitais. Para atingir esses consumidores as canções são espalhadas por todas as plataformas de streaming e a disseminação nas redes sociais é direcionada de acordo com a localização, ou perfil de público.

Mas, é preciso ter atenção que eles possuem os próprios meios de comunicação, como alerta Gabriel Thomaz: “Essa que é a parada. Tem umas coisas que são loucas. Eu não tenho 1 milhão de amigos em um determinado país que eu vou colocar no Facebook e vai todo mundo curtir, mas estou em grupos determinados, que me colocaram inclusive, que de repente você coloca um negócio ali e todo mundo fica sabendo e rola. Mas até você ser incluído ali – não tem como adivinhar onde a galera está – pode demorar. Mas rola. você vai fazendo e as coisas vão pintando“.

Um aspecto muito interessante que o Gabriel Thomaz aborda é que “o mercado lá fora é muito grande e com vários nichos, ao contrário do nosso que ainda é muito desorganizado. Quando morreu aquele cantor sertanejo [Cristiano Araújo, falecido em 24/06/2015] tinha um texto dizendo que o Brasil não conhece o próprio Brasil e isso não tem nada a ver! Isso tem a ver com um início de uma segmentação no mercado. Se você gosta de música eletrônica e nunca ouviu falar de um artista sertanejo isso é absolutamente normal. Não é preconceito não conhecer. Ele nunca deve ter ouvido falar do Autoramas, e aí? Tenho certeza que ele nunca ouviu falar no The Baggios… É uma questão de nicho, de segmentação. São padrões antigos. Eu vejo entrevistas de artistas de mpb dizendo que não conseguem atingir o povão. Mas cara, quando você fez a música você estava pensando neles? Eles estão em outro lugar, fazendo outra coisa. Não é assim. E mesmo antigamente o povão mesmo não consumia uma mpb. Eles curtiam Odair José, Fernando Mendes, era outra coisa também. É engracado eu sempre vi a galera querendo ser aceito no público que não é o dele. São nichos, a gente vai indo no nosso. Isso é um simples caso de segmentação“, analisa o líder do Autoramas.

Só que não basta trabalhar apenas no meio virtual para conquistar seu público, como enfatiza Anderson Foca: “nossa estratégia é ganhar um fã por vez fazendo shows, por isso que nossa agenda é tão grande. E isso serve pro Brasil ou para gringa. As redes sociais reforçam o contato e o lugar onde o fã acha sua música no pós show. Mas primeiro o contato ao vivo é primordial. Fãs de música reais são aqueles que você ganha quando ele assiste ao seu show, o resto é muito ralo, não temos como saber se tá de passagem ou se gosta mesmo de nós“.

5. Prepare-se para montar banquinha.

Tendo em vista as reconfigurações na indústria musical e a queda nos valores de venda do fonograma, diversos músicos têm buscado alternativas para incrementar sua renda, como por exemplo um grande investimento em produtos de merchandising. Antes de sair de viagem preocupe-se em preparar um bom material promocional da banda. Pense em algo que tenha identificação com seu público-alvo e que não seja muito difícil de levar na turnê.

A Camarones Orquestra Guitarrística, por exemplo, costuma levar CDs (a banda possui 5 álbuns) e camisetas, por serem fáceis de carregar. Já na banquinha do Autoramas, o grande sucesso de vendas – além das camisetas – são os vinis, que são produzidos na Europa mesmo. “Nós prensamos na Alemanha. Há fábricas na República Tcheca e na Bélgica que também são as melhores do mundo. Até 1 ano e meio atrás você mandava prensar o vinil e ele ficava pronto em 1 mês e meio. Agora está uma loucura. Na última turnê era pra sair um vinil nosso e como agora todo mundo faz vinil e as grandes gravadoras estão ocupando as fábricas estamos há 6 meses na fila para prensar este vinil. Eu tive que engolir essa no orçamento“, relata Gabriel.

6. Tem que ter disposição.

Saiba que no início não vai ser fácil, mas a cada saída você vai aprendendo um pouco mais e melhorando a organização de tudo. O que importa é ter energia para todo o processo, afinal, como resume Anderson Foca, “todos os lugares tem potencial se você confia na parada e está preparado“.

Para Gabriel Thomaz, a disposição de cair na aventura é uma das coisas principais para realizar uma turnê: “às vezes dá problema, às vezes tem coisas que não dão exatamente certo: atraso, cancelamento, cai a neve, milhões de coisas e você está muito longe de casa e não tem pra quem pedir socorro sabe. Então, é uma aventura. A gente vai saboreando de acordo com o que vai acontecendo. As últimas turnês foram muito melhores que as primeiras. Fazer turnê longa é cansativo, estressante. É interessante fazer uma turnê curta, mas por outro lado não banca a turnê. É o somatório de tudo que banca a empreitada inteira“.

BOA VIAGEM! :)


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