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Entrevista Arnaldo Baptista no Festival Morrostock 2013

Por Simone Ishizuka

De fala baixa e de jeito carinhoso – até quando vai cumprimentar, com um abraço forte e de sorriso contagiante -, um gênio da música brasileira (e pode-se afirmar ‘do mundo’, sem exageros), o ex-Mutante Arnaldo Baptista nos recebeu na cidade de Sapiranga (RS), região metropolitana de Porto Alegre. Local onde ele fez uma apresentação da turnê ‘Sarau o Benedito¿’ na noite seguinte.

O papo foi breve, mas o suficiente para ser inesquecível. Ao lado do jornalista Caio Rocha, da rádioweb Putz Grila, a entrevista deu uma pincelada de como tudo começou, na era tropicalista, na vida atual do artista e também (por que não?) sobre discos voadores. Conversa digna de um Loki!

Música no DNA

Filho da primeira mulher que escreveu um concerto em piano para orquestra no Brasil, Arnaldo já tinha a música correndo as veias desde o berço. Ao ser questionado quando foi o primeiro contato com o rock, ele afirmou que começou a ouvir em uma época na qual o estilo ainda não era muito bem aceito no país. “Eu comecei a escutar a música “What’d I Say” (Ray Charles), essa que há muitos anos me deixou impressionado. Depois segui adiante escutando Elvis Presley e também os brasileiros dos Incríveis, Os Clevers e tudo mais”.

A banda Mutante, no qual Arnaldo foi o ‘cabeça’ que deu o caminho musical total ao grupo, já foi comparado sem demais demagogias aos Beatles e Rolling Stones. Ao afirmarmos que o rock no Brasil começou a ser aceito a partir do trabalho dele, Arnaldo deu um largo sorriso, mas nos veio com uma informação frustrante também. “É gostoso ouvir isso, pois às vezes fico perdido porque estou tendo poucos shows. Mas é bom que eles deem valor e espero continuar contribuindo com o rock brasileiro”, desabafou sem rodeios.

Tropicália

Apesar deste desabafo, ele em nenhum momento expressou estar infeliz com a situação. Muito pelo contrário! Seu processo criativo, que se mistura nas cores de suas músicas, ainda estão presentes desde os primórdios. Ainda sobre o primeiro contato com o rock, ele disse que este acontecimento se mistura também com a era tropicalista, no qual o Brasil passou em plena ditadura militar. “Pergunta profunda. Tão profunda do quanto dizer ‘Tropicália’, não é? Vai entender o que foi a Tropicália”, disse.

Apesar de ser considerado um dos gênios da vanguarda, Arnaldo revela que os entrevistadores às vezes sabem muito mais que ele sobre o assunto. “Eu sou uma pessoa que sabe mais de música do que filosofia. As pessoas que me entrevistam, entendem muito mais que eu o lado político e filosófico do tropicalismo, que às vezes envolvia a revolução francesa e tudo mais. E ouvindo estas pessoas, percebo que elas têm um conhecimento muito mais profundo que eu”, revela.

Em meio a esta era, ele também contou um pouco sobre Rogério Duprat, produtor musical dos Mutantes. Considerado o ‘George Martin’ da banda, Arnaldo relembrou momentos com o amigo (falecido em 2006) como se ele ainda estivesse vivo. “Meu diálogo com o Duprat foi muito parecido com o do Sean Lennon (filho do John Lennon). A gente conversava e não saía nada, mas quando pintou um violão a gente se entendeu que era uma maravilha (risos). Com o Duprat foi a mesma coisa. A gente possuía um entendimento mais musical do que qualquer outra coisa”, afirma. “A música é algo que faz parte da minha vida e o Duprat colaborou muito com isso”.

Atualidade

Com a vida tranquila em um sítio em Juiz de Fora (MG), Arnaldo segue descansando com seus bichos, pinturas e música – esta última em especial, que o mesmo quis enfatizar sua produção atual. “Eu estou levando isso na ‘colcha de retalhos’, como sempre falo. Às vezes eu consigo gravar duas ou três músicas na sequência, com toda inspiração e quando estou me sentindo bem com os instrumentos. Mas às vezes fico uns três dias sem gravar, e me sinto um pouco culpado em função do quanto eu consigo produzir diariamente. Mas a vida tem sido gostosa. Estou pintando também e isso colore a vida que faz sentido”, conta.

“Ultimamente eu tenho mais passeado e pintado mais. Estudo mais a bateria, teclado, guitarra, às vezes passo uma temporada na irmã da ‘minha menina’ (como se refere a sua esposa, Lucinha Barbosa), estudando um pouco…”.

Além disso, ele revelou que vem algumas novidades por aí. Sobre a sua parceria com o guitarrista e produtor Fernando Catatau (considerado um dos melhores músicos da atualidade), Arnaldo disse que o encontro rendeu bons frutos. “Ele (Catatau) foi lá em casa e estamos produzindo alguma coisa. Eu sou uma espécie de explorador e pesquisador de música. E estou em busca da era digital. E isso tudo faz parte da produção do meu novo CD, só com equipamento valvulado, mas é assim que está acontecendo”.

Discos Voadores

Uma pergunta que não poderia deixar de fazer é sobre discos voadores. Em seus álbuns solos, principalmente, percebe-se uma relação quase que ‘íntima’ com os seres extra terrestres. E com argumentos científicos e precisos, ele revelou que tudo começou quando sua mãe havia afirmado que tinha visto um objeto não identificado no céu, que na hora não acreditou muito, mas que foi amadurecendo a criatividade em torno disso com o tempo.

Mas foi a mais ou menos 15 anos, que o músico afirma ter o primeiro contato com o mundo cósmico. “É uma coisa importantíssima isso. Ele não fazia ruído nenhum, andava em elipse e desaparecia e fazia movimentos em velocidade espetacular. E me pergunto o tipo de tecnologia que eles possuem e de porque eles não fazem contato conosco”, conta.

Arnaldo foi mais a fundo na questão e discutiu sobre os grávitons, que é a gravidade terrestre, e de como isso influencia na nossa vida aqui na terra. A explicação foi feita de forma técnica, digna de um vocabulário científico, mas que podemos deixar os detalhes um pouco de lado e seguir adiante com a entrevista.

Show em Sapiranga (RS)

Ansioso com o show, o ex-Mutante expressou muita alegria por tocar aqui na terra dos gaúchos. “Um amigo meu sempre fala ‘pro Arnaldo ficar feliz, é só deixar ele tocar toda hora em um show’. Eu atualmente fico pensando sobre isso, em escrever letras com métrica com poesia, e coisas que motivam as pessoas a existir que tenha rentabilidade. Então me interesso por isso tudo”, conta.

E toda essa alegria pôde ser conferida em um show intimista, na voz e no piano do mito. De poucas palavras, mas com muita expressão, Arnaldo soube passar toda a emoção mais profunda que há na sua obra.

Tocou músicas que fizeram parte de toda sua carreira, que vem desde os Mutantes, a Patrulha do Espaço, algumas baladinhas em inglês, além de sucessos solos também, como Loki, considerado um dos maiores clássicos da música brasileira. Mas o que levantou o público foi a “Balada do Louco”. Com a letra profunda e sincera, a música que fez muita gente chorar e cantar alto na plateia.

A apresentação foi resumida na emoção de ver o artista de perto, fazendo o que sabe com prioridade. Realizando, assim, o sonho dos fãs presentes no show.

Expressivo, amável, mito, um loki. Com certeza estes momentos, que foi desde o primeiro contato até o show do artista, foi daqueles inesquecíveis para se colocar na história. E que ele continue ‘decolando toda manhã’ com mesmo talento, que se resume nesta missão de mudar a vida das pessoas aqui na terra e, quem sabe, até no espaço, através da música.


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