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Entrevista: Dale! O mundo conhecendo Finlândia

O duo Finlândia esteve na última semana lançando o disco em Porto Alegre, a banda se apresentou na Casa de Cultura Mário Quintana e também na Noite Fora do Eixo PoA. Aproveitando os dois dias que a banda ficou na cidade, a equipe do TNB realizou uma entrevista com a banda e pôde conversar a respeito do lançamento do seu novo disco DALE, que conta com a participações de diversos músicos de todo o mundo. Conversamos também sobre temas como circulação e sustentabilidade na música independente. Segue abaixo a conversa na íntegra com os músicos Raphael Evangelista e Maurício Candussi.

Finlândia na Noite Fora do Eixo Porto Alegre

Fale sobre o novo disco DALE que vocês acabaram de lançar. Como foi o processo de concepção e gravação?

Raphael: A gente ta lançando o quarto disco, que se chama DALE, é um disco de colaborações de músicos de 4 continentes, tem músico do Japão, músico da Rússia, e claro, músicos daqui da América do Sul, os brasileiros Fernanda Porto e Curumim e os argentinos Gaby Betralmino,  Sinja Dujov e Rufo Cruz. É um resultado das turnês anteriores onde a gente foi conhecendo músicos ao redor do mundo, fazendo contatos e daí foram gerando parcerias, foi gerando colaborações e concretizou nesse material fonográfico, firmando uma parceria mais concreta. Como foi o caso do Curumim que tocamos em um festival em Salvador, aí ficamos mais próximos. Fomos criando esse catálogo de artistas que poderiam participar desse novo disco. E aí nasceu Dale, trabalho de um ano de construção, porque era difícil um pouco conectar os músicos cada um na sua cidade, e como fazer isso funcionar na forma de mandar seus instrumentos gravados, enviar para uma cidade para mixar enviar pra outra para masterizar, ao mesmo tempo questões de direito autorais. Ou seja, foi um grande trabalho que mexeu muito com a agente.

A idéia é basicamente mostrar nesse disco esse poder da construção colaborativa, de poder transcender essa questão de estar preso em um estúdio em uma cidade e não poder dialogar com outros músicos. Não, isso é possível, temos as ferramentas todas aí, que vai muito além da parte apenas musical, mas vai também da parte estratégica, ao ponto de você poder gerir uma carreira em um computador, em um laptop na sua casa, como armar uma turnê, gerar todo o produto de imprensa, toda questão de diagramação do flyer, de publicidade, dos cartazes, tudo!

Tudo em um computador, em conexão com o mundo através da internet. Então essa questão de utilizar redes, como o Fora do Eixo que é uma dos principais do Brasil e do Mundo, que dão um grande suporte para se locomover, para poder gerir sua carreira bem. A gente acredita muito na questão da circulação, na prática concluo que fazer uma turnê é a principal ferramenta para o artista independente hoje. É daí que gerou muita coisa da nossa carreira. Você planejar um roteiro, seguir esse roteiro e daí vai gerando contatos, não só musicais, mas estratégicos, para que se cria novas possibilidades, novas oportunidades, e dai vai se criando o ciclo auto-sustentável tanto financeiro como do próprio produto artístico, isso é muito bacana. Então a gente acredita muito nessa questão, por isso a gente está sempre circulando não só no Brasil mas por outros países, porque a gente acredita nisso: se movendo que se consegue criar as possibilidades e de criar um caminho um pouco mais concreto nesse mercado bem louco que é o independente.

Como está sendo a turnê de lançamento?

Raphael: A turnê começou 10 de abril no Uruguai no Festival Contra-Pedal, que foi um começo com chave de ouro, porque é um festival significativo da cidade e do país. Então a gente já seguiu para Argentina e fizemos algumas cidades, saindo um pouco também de ficar só na capital, seguindo também por cidades do interior, como a cidade do Maurício, Cordoba,  fizemos Santa Fé, Rosário, Raphaela. E entramos no Brasil a poucos dias, fizemos Pelotas no Festival de Jazz com grandes nomes nacionais, foi um prazer, uma honra pra gente, e fomos a Bagé e agora estamos aqui em Porto Alegre, seguindo a turnê nos primeiros shows no Brasil. Daqui a gente segue para São Paulo, estamos com várias datas em Minas Gerais e já está se armando para o resto do ano por todo brasil, confirmando cidades no nordeste e com volta a Minas e tudo mais. Paralelo a isso, a gente também fechou com uma agência Francesa que já está armando toda a estrutura de turnê de divulgação do DALE na Europa. Mais pro final do ano, e em 2014, já vai estar armado algum corredor pra gente fazer por lá e tendo uma estrutura de divulgação estabelecida. Então Dale começa a criar um caminho por si só pra divulgar esse disco novo, e por onde a gente passa tenta convidar quem participou do disco, já que vamos passar por várias cidades em que os músicos participaram do disco, a gente convida pra participar do show. Assim como foi em Pelotas com a cantora Nandão Brandão, que participou uma das fazixas do disco e cantou com a gente ao vivo e foi demais! Não sei quando vai reunir de novo, mas foi muito bom!

Como o grupo faz para conciliar as agendas, sendo que um músico mora no Brasil e o outro na Argentina?

Raphael: O Maurício mora em Córdoba na Argentina, e eu moro aqui no Rio Grande do Sul em Pelotas. O ponto de partida de uma turnê é uma logística imensa, como a gente se encontrar para começar a turnê. Então toda vez a gente se encontra na primeira cidade onde vai acontecer o show. No caso agora a gente se encontrou em Montevidéu, fomos de ônibus, a gente se encontrou apenas na cidade. E aí Mauro, td bem?… e já tocava a noite, encontrava de manhã e já tocava a noite. Então é uma logística até nessa questão, por esse lance a gente ta em uma constante comunicação pela internet. Por dia eu acho que falo mais com o Mauro que com meu vizinho, assim por estar sempre conectado, skype, email, é mais de 10 email’s por dia. E quando é uma coisa urgente é um Skype. Então essa questão de estar sempre em comunicação é um grande barato para fazer a coisa acontecer,

Quando começam as turnês já estamos juntos, então pra gente não fica muito viável ficar fazendo bate e volta numa cidade, pra gente tem que ser turnês pra conseguir se auto-sustentável e fazer a coisa no minimo empatar os números. Então pra gente só compensa fazer turnês. O que a gente faz é se encontrar para uma turnê estabelecida com começo e final, daí a gente já tem uma noção geral das receitas, uma noção geral de cronograma e ai quando terminam as estapas voltamos. O que a gente decidiu é não fazer mais turnê tão grandes porque cansa demais. A meta era 15 dias, mas a gente já ta burlando um pouco essa regra, já estamos passando para um mês ou um mês e meio. Pq começa a cansar um pouco porque é cidade e viagem, cidade e viagem… ai começa a perder um pouco de rendimento dos shows, você está sempre cansado, isso não é tão legal, a gente então sempre faz essas etapas da turnê. Por exemplo: a gente fez agora Uruguai e Argentina, demos uma pausa de uma semana, 10 dias, nos encontramos de novo e já estamos seguindo outra etapa que termina no começo de junho, dando uma pausa e retomando em julho e aí segue… então assim é uma forma de respirar e voltar a vida um pouco pessoal também, tem que ter esses momentos de respiro.

Qual a avaliação de vocês do mercado da música independente na América Latina? Como é na Argentina e em outros países? E fale um pouco sobre o processo de sustentabilidade da banda. Conseguem viver de música?

Maurício: Ahora eu vejo isso que são mercados que estão se conectando, não apenas em Argentina e Brasil, mas também Uruguai. Fundamental, Uruguai necessita de se conectar com Argentina e Brasil, porque está ligado geograficamente. É um país pequeno, e o músico precisa sair para tocar e também outros países da América Latina estão se conectando, armando conexões em festivais independentes. Creio que um mercado que está crescendo, e rápido, muy rápido, está bueno. Até porque são artistas que representam muy bien a cultura do país e não são mainstream.

Raphael: E sobrevivem bem né? Vivem super bem, tem vários relatos assim de amigos nossos da banda Friguey de El Salvador, América Central. Eles sobrevivem super bem, apesar do país ser pequeno, mas eles conseguem manter uma  estrutura de trabalho, transformaram a banda numa empresa mesmo, ao ponto de ter a mídia na mão para poder lançar um disco, já ter uma estrutura de turnê, tem até caminhão, tem tudo. Então essa questão, da consciência empreendedora artistica, vamos trabalhar com as nossas capacidades, e ver o que a gente pode fazer e transformar a banda numa empresa mesmo, fazendo a coisa acontecer. E sim a gente vive de música. No Finlandia creio que para os dois é o principal projeto hoje em dia, é o que toma mais tempo da gente nesses últimos 3 anos. Claro que a gente tem outros projetos paralelos, mas é o Finlandia que paga as nossas contas,  a partir desse planejamento de carreira e tudo mais a gente consegue ser auto-sustentável para o projeto e também remunerar os músicos. É um exemplo concreto de que se tiver planejamento e um pouco de visão de futuro, já dá para fazer uma coisa auto-sustentável e se dedicar seu tempo integral a isso, vem o retorno. Não é uma receita de bolo, é mais é uma forma, um modelo que deu certo com a gente, mas que pode funcionar com mais bandas. Existe um caminho, abre um pouco o panorama de que é possível sobreviver do mercado independente e poder se sustentar dele.


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