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Conheça :: Caio Corsallete e o sertão que não existe mais

Por Ronaldo Bressane

Já de prima se nota: o que temos aqui não é um sertanejo universitário, senhores. Caio Corsalette é um sertanejo com PhD, Western Rock. Isso não quer dizer que seu som seja cabeçudo. Ser simples não é fácil! A pegada country rock de Corsalette e sua banda Dollar Furado sai fora do romantismo meloso pra se aproximar do hillbilly macho, de voz grave, sem vibrato, letras simples fugindo de imagens cafonas. O fantasma de Johnny Cash zanza por esse CD. “Vou seguindo triste em qualquer direção/ como um rasgo de espora que marcou um animal”, canta ele em “Espora”, sobre o banjo envenenado de Marcelo Modesto e a guitarra à Sergio Leone de Edu Quebra Coco.

Em “Ferradura”, Caio prossegue seu ataque criativo às imagens típicas do mundão véio sem porteira. “Foi como um tiro que sangrou mas não matou/ Atordoou/ Na corda bamba só quem anda é ferradura”, brada o cowboy da cidade, sabedor que, sem sorte, um bom vaqueiro não toma nem um picolé. E a banda chega cavalgando duro: é pop pra dançar e cantar junto.

“Mulher da cidade” é a primeira das parcerias de Corsalette com Peu Souza, guitarrista lendário do pop rock nacional – tocou com Pin Ups, Pitty e Carlinhos Brown. O belo slide guitar do baiano sublinha o desconsolo do sertanejo ao encarar as mentiras da musa urbana: “Ela tem dois olhos grandes/ E você acreditou que um sinal/ Fosse o bastante/ Foi em frente vendo o verde do farol/ Esmagado atropelado/ Pelos erros do outro lado/ …/ Mas são tão doces sons/ Na sua boca parecem de verdade”.

“A ferro e fogo” aprofunda duas marcas do som de Corsalette e a Dollar Furado: a classe da guitarra de Quebra Coco e a ausência de refrões – recurso preguiçoso, usado tanto pelo sertanejo universitário quanto pelo rock colegial. Outra canção à Hank Williams, o caipira fundamental que influenciou o som de Elvis Presley – em vez de beber na fonte dos imitadores, Corsalette prefere ir direto à raiz do country.

Épica e lenta, “Soco na cara” veio direto dos faroestes, das planícies empoeiradas e solitárias, dos embates entre parceiros que se traem por causa de ninharias e vão vagar por cânions fantasmagóricos: “O nosso dólar tá furado/ O nosso peito tá rasgado/ E todo esse sangue não vale um tostão”. Você fica se perguntando: onde estão os índios, cadê a sétima cavalaria?

“Uma mulher” é música de fronteira. Da fronteira TexMex, Mato Grosso/ Paraguai. Cadenciada, fala do homem que largou tudo pela estrada, mas o coração ainda bate na lembrança do amor perdido: “Longe de casa aprendi a ter saudade/ com meu cavalo virei homem numa queda”. Ecos do primeiro Zé Ramalho e do comanchero Wander Wildner aproximam Corsalette da mística do violeiro solitário.

“Carne osso” é pra tocar no rádio. “Couro, carne, osso/ Arame farpado/ Pedra, pólvora, cajado/ Foice, bala, um facão/ Eu posso usar/ Tudo isso contra o mundo”, canta Corsalette, raivoso, mas contido. Em vez do ódio, porém, ele prefere manter sua solidão íntegra: “Nunca vou me conformar/ Que deixaram para trás/ Um cavalo só porque se machucou/ … / É melhor morrer sozinho”.

E já emenda com o elétrico rockabilly “Mundo imundo”, em que se revolta contra a sociedade gananciosa e novamente solta seu grito de libertação: “Você jamais vai poder entender/ E vai viver como um peixe em uma poça/ Condenado a preferir a escuridão/ Porque se o sol sair/ Você vai secar”. Quem disse que sertanejo não pode ser punk?

A princípio, a balada “Asfalto da cidade” parece oferecer uma parada entre essas canções furibundas. É enganoso: se “não existe tempo/ pra falar de amor”, o jeito é sair “correndo/ pelo asfalto da cidade”. No verso em que Corsalette pede que lhe ajudem a “esquecer quem asfaltou o meu passado”, se entende que sua música é a nostalgia do homem que vive na cidade mas ainda sofre a saudade do campo, chão perdido para sempre.

“A história da estrada longa” é mais uma balada para desaquecer esporas, selas e ferraduras, depois de tanta correria nos hillbillys das primeiras faixas. É uma canção para cantar à beira da fogueira, que reflete sobre as viagens das canções anteriores. Finaliza com um grande verso: “Aprendi na estrada longa que a história assombra toda coragem”.

E enfim o cowboy resolve partir. A cidade foi pequena demais para ele e seu Dollar Furado. Na ralentada “Nesses dias”, nova parceria com Peu, que larga aqui uma guitarra climática à Chris Isaak, Corsalette manda “Hey, meu amor/ Dessa cidade daqui a pouco eu vou embora/ O tempo aqui passa depressa”. Aferrado às suas origens de roqueiro antigo e sua ética de pistoleiro solitário, ele vai atrás de um outro tempo, outro lugar. Um sertão que não existe: a trilha de Caio Corsalette.

Confira em primeira mão: caiocorsalette.tnb.art.br

Caio Corselette
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